Programa completo com amostras de cada pista

Canto ritual de macumba, invocação nagô a um dos mais conhecidos e poderosos orixás do candomblé e demais variantes desse culto africano — Xangô, senhor das tempestades, raios e trovões, senhor do fogo.
A força rítmica da estilizada e marcante linha melódica sobre o texto ioruba de caráter onomatopeico, com suas alternâncias de rima, vem acentuar o efeito conjurador da voz, acompanhada do vigoroso e obstinado ritmo que lhe corresponde.
Arranjo sobre o canto de um tema solista (A), exposto “a capela” com a 'tabla' para posteriormente introduzir o piano e o contrabaixo num solo com arco evocador que define a cena. Entrada ao desenvolvimento com um período de tipo ostinato sobre o qual se repete de maneira variada a célula principal do tema, até a entrada do solo de piano com marcado caráter afro. Re-exposição do tema sobre arranjo em estética de jazz para finalizar em subida de tom cromático retomando a trama produzida pelo ostinato.

Último da série de cinco prelúdios para violão, compostos em 1940 (um suposto nº 6 se perdeu), e que tem por característica o jogo (poli)tonal e a respectiva mudança de registros harmônicos, sem dúvida com o propósito de enriquecer a relativa singeleza da melodía que evoca uma típica seresta.
O texto (de JRBustamante), inspirado na própria estrutura do prelúdio, assume o caráter de uma reflexão poética em tom de seresta, como homenagem do autor ao gênio popular do Villa seresteiro.
Preferimos manter aqui, respeitando o ducto melódico, a tonalidade original.

Composição de A. Conde (dedicada a Carmen Durán), em forma de fuga e variações, imitando de certa forma a modinha. Também neste número almeja o texto lírico (JRBustamante), composto diretamente sobre a partitura de A. Conde, inserir-se na estrutura musical preexistente, de forma tal a constituir uma perfeita fusão entre a composição poética e a melodia com seu ritmo e as variações harmônicas.

Uma das composições mais conhecidas de Villa-Lobos, e das mais 'executadas' no mundo inteiro, também no sentido pejorativo do termo, ou seja maltratadas, inclusive por grandes nomes do canto lírico, e com assombrosa frequência.
Texto de Ruth Valadares Correa. A música do mestre carioca salva-o de certa inocuidade.
É o que, com toda sinceridade artística, também pretende nossa elaborada contribuição interpretativa, respeitando basicamente o original, com o inventivo e feliz arranjo de Alberto Conde e a magistral interpretação, genuinamente clássica e refinada, de Carmen Durán, sem concessões vocais de questionável sabor popular, ainda correntes e presentes no mercado brasileiro e internacional, e das quais preferimos distanciar-nos por não fazerem, a nosso ver, nenhuma honra ao original do grande VL.

Imitação ou variação fortemente ritmada, com jeito de típica embolada nordestina e mesmo de forró, de um tradicional desafio sobre o curioso e pitoresco texto (igualmente nordestino!), encomendado ao grandíssimo poeta (pernambucano, radicado no Rio e amigo de VL), Manuel Bandeira, numa grandiosa celebração da pujança de sua terra com toda a passarada cantora.

Composição de A. Conde, com texto (em inglês) escrito posteriormente por JRBustamante. Introdução em ritmo afro-brasileiro. Tema instrumental-orquestral com solo de piano sobre variações que lembram VL. Estilo jazz contemporâneo. Tema com voz, pop-jazz, que enlaça com final interactivo de tipo 'turn-around' sobre a célula principal do tema com um marcado estilo que fusiona o afro-brasileiro com o sinfônico-jazzístico.

Improvisação pianística, original de Alberto Conde, seguindo formalmente o estilo romântico e pensada como uma espécie de enlace à peça que segue.

Também para este Choro pensamos na posibilidade de juntar palavras à melodia original de Villa-Lobos, de certa forma comentando a estrutura da composição “chorona” que inclui, como quase todas as peças da série, subtítulos significativos, neste caso “alma brasileira”. Igualmente cabe ressaltar o meticuloso respeito à estrutura original da obra, pois tanto o arranjo de Alberto Conde como o texto, inspirado nas indicações de Villa-Lobos para a execução da obra, buscam deixar intacto o caráter da mesma.

Peça afro-amazônica para voz grave, percussão e contrabaixo, onde a voz assume um caráter mágico de evocação étnico-xamanística emitindo profundos vocalises pautados numa sequência vocálica aproxima­da a um silábico “Auê”… querendo antecipar o sincretismo da peça seguinte.

Trata-se de nosso mais forte desafio artístico para completar o projeto.
Optamos neste caso apenas pela segunda parte da composição original, na qual intervém o coro misto sobre motivos do “Schottisch Yara” de Anacleto de Medeiros e da canção de ninar dos índios parecis que Villa-Lobos utilizou simultanea­mente, conforme seu método habitual, em múltiplas variações e com um texto onomatopeico inventado por ele para imitar a fala dos índios, mas que não tem significado algum a não ser o efeito musical- sinfônico puro e simples.

O texto original de “Rasga o coração”, de Catulo da Paixão Cearense, não se pôde utilizar enquanto esteve protegido por direitos autorais e por isso Villa-Lobos só aproveitou a melodia de Anacleto de Medeiros recorrendo a vocalises para as intervenções do coro. Durante muito tempo foi acusado de plágio. Hoje, liberado o texto, eventualmente já se usam nas execuções da obra pelo menos algumas frases do poema de Catulo, o qual no entanto, por questões estéticas ligadas ao tratamento moderno, preferimos adaptar em conteúdo e forma, buscando porém manter o ritmo para acompanhar as frases musicais de Villa-Lobos, arranjadas por Alberto Conde.

(© by JRBustamante, 2012)