Villa Lobos350Heitor Villa-Lobos

nascido no Rio de Janeiro a 5 de março de 1887, deixou uma obra de tão alto nível e polifacética em todos os seus aspectos e gêneros que merece sem dúvida alguma a atenção de qualquer músico, intrumentista ou cantor, arranjador ou compositor, interessado em explorar as imensas possibili­dades criadoras e interpretativas de seus temas, melodias, variações e formas musicais.

Nosso trabalho pretende ser um tributo, de âmbito internacional, à genial figura do mais emblemático compositor brasileiro do século XX, unindo-se assim às múltiplas homenagens musicais a ele devidas pelo 125º aniversário de seu nascimento.

Para isso escolhemos algumas de suas mais significativas composições, devidamente arranjadas para um quarteto de jazz e voz de soprano, junto a três peças originais inspiradas em motivos do mestre, ou células musicais que lembram o afã criador de VL em suas explorações do folclore nacional e de melodias populares, com textos em português (de autor brasileiro), escritos especialmente para este programa. Ver detalhes mais adiante.

“Falar sobre Villa-Lobos não é tarefa fácil”:
assim começa Ermelinda A. Paz seu trabalho de investigação sobre as relações entre o grande ícone da arte musical no Brasil e a MPB. A literatura hoje existente, especializada ou não, sobre vida e obra de VL é simplesmente desbordante. Por isso deixamos aqui apenas algumas notas, remitindo os interessados às fontes acessíveis na Internet (livros, monografias, artigos, gravações etc.) e que abarcam todos os aspectos de sua vida e de sua imensa produção musical.

O homem e sua obra

“A música é tão sutil como o pão e a água.” (HVL)

Das mãos do pai, “um músico prático, técnico e perfeito” (palavras de HVL), conheceu desde tenra idade a ilustres figuras da época, músicos, escritores, críticos, etnólogos, e sobretudo os “chorões”, aqueles ins­trumentistas virtuosos que se dedicavam a animar as rodas de choro nas festas populares e salões cariocas da elite social de inícios do século. Note-se que o choro (“a verdadeira encarnação da alma brasileira”, segundo VL) gozava então de um prestígio bem maior que o samba, considerado pela maioria culta, ou pseudo-culta, música de gente humilde, de baixa categoria social: não obstante, para o pequeno Heitor (Tuhú, no trato familiar) a escola ideal, de onde ia sacando o alimento para sua fome de aprendizagem e domínio de instrumentos e formas. A princípio foi o violoncelo e a clarineta, mais tarde veio o violão e afinal o piano. “Quando entrei naquele meio —os chorões— não foi para me divertir, e sim para me im­buir daquele clima,” declarou ele a quem seria mais tarde sua segunda mulher D. Arminda (Mindinha).

Ao ficar órfão de pai, vítima da febre amarela, e com apenas 12 anos, logo teve que começar a contribuir para a economia familiar, a partir de então a cargo de sua mãe. Tocava em bares, cabarés, festas, saraus, teatros de revista e no famoso Cine Odeon, onde veio a conhecer o pianista Arthur Rubinstein, que nos anos 20 seria entre outras celebridades seu grande amigo e valioso apoio em Paris.

A mescla de estruturas clássicas, já então impregnadas de elementos próprios da cultura local, serviu para desenvolver em seu espírito criador a faceta sincretista do que se transformaria na explosiva fusão entre clássico e popular ou folclórico da produção musical do Villa, como carinhosamente o chamamos.

Para obter a indiscutível “maestria” que o caracteriza desde o início de suas atividades como compositor intrinsecamente brasileiro, e ademais nacionalista no sentido estético e cívico que ele mesmo dava a essa palavra, VL, que não confiava em academias (“Um pé na academia e você muda pra pior!”) e por isso não quis submeter-se à formação acadêmica, tendo-se dedicado por iniciativa própria ao estudo de partituras e compêndios de teoria musical, empreendeu diversas excursões pelas regiões mais distantes do Brasil, o Amazonas, o Nordeste, buscando nas tradições e costumes de índios e sertanejos, na exuberância tropical de cores e sons da natureza, a autenticidade a que aspirava para suas obras.


“Meu tratado de harmonia é o mapa do Brasil!”

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Irritado com os preconceitos reinantes na sociedade brasileira, mormente nos grandes centros urbanos (Rio e S. Paulo), e mais ainda no meio artístico da época, que relutava em reconhecer seu trabalho como compositor moderno, firmemente decidido a renovar os parâmetros da criação musical no país, isso sim, baseados na tradição clássica (Bach, Beethoven, Chopin, Debussy e outros), mas orientados a incorporar os autênticos elementos populares presentes nas manifestações culturais de diversas camadas da socie­dade brasileira, já consagrados por inúmeros artistas da época colonial e com maior ênfase pelos melhores músicos do século XIX, bem como por seus contemporâneos, VL não teve outra opção a não ser sair do Brasil e trasladar-se a Paris, o maior centro cultural dos anos 20, para lá dar prova de seu talento artístico mostrando ao sofisticado público parisiense e aos “colegas de ofício” suas recentes criações. Contava para isso com o apoio financeiro de mecenas amigos que muito o admiravam e respeitavam por seu gênio vulcânico e sua forte e atraente personalidade.

Assim chegou a Paris, não para aprender dos grandes nomes que lá representavam a modernidade, mas para apresentar seus novos achados, inspirados na exuberância e diversidade cultural dos trópicos brasi­leiros. “Vocês é que vão estudar comigo”, disse ao chegar, consciente de seu valor e capacidade.

O êxito fulminante, artístico e social, de sua presença em Paris confirmou plenamente suas aspirações ao reconhecimento internacional de gênio criador e foi fundamental para que ele continuasse a desenvolver e incrementar sua febril atividade musical, dando origem a um sem-número de obras de altíssima quali­dade… surpreendentes, provocantes, originais.

O caloroso aplauso de grandes artistas e personalidades do mundo musical europeu deu-lhe ânimo e forças para seguir com sua prolífica atividade de compositor, regente, empreendedor cultural e educador das novas gerações brasileiras, obtendo para esse fim o total apoio do governo Vargas, fato que lhe causou na época duras críticas e tendenciosas acusações de quem o considerava um simples oportunista, a serviço de um regime autoritário.

Villa-Lobos compunha com Bach na cabeça e o Brasil no coração, de um lado contraponto e fuga, es­truturas clássicas, consagradas, e do outro, numa simbiose francamente genial, toda a gama verde-amarela da deslumbrante natureza tropical e da inesgotável variedade cultural de suas manifestações populares, folclóricas, autóctones, traduzidas em motivos, canções, danças, ritmos e melodias de inspira­ção local e de origem indígena e/ou africana, fusionando-as com os elementos da tradição europeia.

 

(© JRBustamante, 2012)